Almada Negreiros, Técnica Mista Sobre Cartão 24x32cm

Código: EB5VHKQYS

José Sobral de Almada Negreiros GOSE (Trindade, São Tomé e Príncipe, 7 de abril de 1893 – Lisboa, 15 de junho de 1970) foi um artista multidisciplinar português que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas (desenho, pintura, etc.) e à escrita (romance, poesia, ensaio, dramaturgia), ocupando uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses.[1]

Almada Negreiros é uma figura ímpar no panorama artístico português do século XX. Essencialmente autodidata (não frequentou qualquer escola de ensino artístico), a sua precocidade levou-o a dedicar-se desde muito jovem ao desenho de humor. Mas a notoriedade que adquiriu no início de carreira prende-se acima de tudo com a escrita, interventiva ou literária. Almada teve um papel particularmente ativo na primeira vanguarda modernista, com importante contribuição para a dinâmica do grupo ligado à Revista Orpheu, sendo a sua ação determinante para que essa publicação não se restringisse à área das letras. Aguerrido, polémico, assumiu um papel central na dinâmica do futurismo em Portugal: "Se à introversão de Fernando Pessoa se deve o heroísmo da realização solitária da grande obra que hoje se reconhece, ao ativismo de Almada deve-se a vibração espetacular do «futurismo» português e doutras oportunas intervenções públicas, em que era preciso dar a cara".[2]

Mas a intervenção pública de Almada e a sua obra não marcaram apenas o primeiro quartel do século XX. Ao contrário de companheiros próximos como Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-Rita, ambos mortos em 1918, a sua ação prolongou-se ao longo de várias décadas, sobrepondo-se à da segunda e terceira geração de modernistas.[3] A contundência das suas intervenções iniciais iria depois abrandar, cedendo o lugar a uma atitude mais lírica e construtiva que abriu caminho para a sua obra plástica e literária da maturidade. Eduardo Lourenço escreve: "Estranho arco de vida e arte o que une Almada «Futurista e tudo», Narciso do Egipto da provocante juventude, ao mago hermético certo de ter encontrado nos anos 40, «a chave» de si e do mundo no «número imanente do universo»".[4]

Almada é também um caso particular no modo como se posicionou em termos de carreira artística. Esteve em Paris, como quase todos os candidatos a artista então faziam, mas fê-lo desfasado dos companheiros de geração e por um período curto, sem verdadeiramente se entrosar com o meio artístico parisiense. E se Paris foi para ele pouco mais do que um ponto de passagem, a sua segunda permanência no estrangeiro revelou-se ainda mais atípica. Residiu em Madrid durante vários anos e o seu regresso ficou associado à decisão de se centrar definitiva e exclusivamente em Portugal.

Ao longo da vida empenhou-se numa enorme diversidade de áreas e meios de expressão — desenho e pintura, ensaio, romance, poesia, dramaturgia… até o bailado —, que Fernando de Azevedo classifica de "fulgurante dispersão".[5] Sem se fixar num domínio único e preciso, o que emerge é sobretudo a imagem do artista total, inclassificável, onde o todo supera a soma das partes. Também neste aspeto Almada se diferencia dos seus pares mais notáveis, Amadeo de Souza-Cardoso e Fernando Pessoa, cuja concentração num território único, exclusivo, foi condição necessária à realização das obras máximas que nos deixaram como legado.

Personalidade incontornável, a inserção de Almada Negreiros na vida e na cultura nacionais é extremamente complexa; segundo José Augusto França, dele fica sobretudo a imagem de "português sem mestre" e, também, tragicamente, "sem discípulos".[1]

Biografia

Almada Negreiros nasceu na Roça da Saudade, freguesia da Trindade, São Tomé e Príncipe, a 7 de Abril de 1893. Foi o primeiro filho de António Lobo de Almada Negreiros, tenente de cavalaria natural de Aljustrel, administrador do Concelho de São Tomé, e de sua esposa Elvira Sobral de Almada Negreiros, uma mulher com fortuna paterna natural dessa ilha e que morreu em 1896. Os primeiros anos da sua infância foram passados em São Tomé. Em 1900, o seu pai é nomeado encarregado do Pavilhão das Colónias na Exposição Universal de Paris; Almada e o seu irmão António são internados no Colégio Jesuíta de Campolide, Lisboa, onde irão residir até à extinção do colégio, em 1910, na sequência da implantação da República.[6][7]

1911–1919

Revista Portugal Futurista, 1917
Papagaio Real, 7 Abril 1914

Depois de uma breve passagem pelo Liceu de Coimbra, em 1911 Almada matricula-se na Escola Internacional, na Rua da Emenda, Lisboa, que frequenta até 1913. Ainda em 1911 publica os primeiros desenhos e caricaturas (nomeadamente na revista humorística A Sátira[8]); no ano imediato redige e ilustra de forma integral o jornal manuscrito A Paródia (reproduzido a copiógrafo na própria escola) e expõe na I Exposição dos Humoristas Portugueses (do ano de 1912 conhece-se colaboração artística da sua autoria no jornal do Porto A Bomba[9]).[7]

Expõe individualmente pela primeira vez em 1913, na Escola Internacional, apresentando 90 desenhos; estabelece contacto com Fernando Pessoa na sequência da crítica à exposição que este publica em A Águia. Nesse mesmo ano participa na II Exposição dos Humoristas Portugueses; colabora como ilustrador em jornais; escreve a sua primeira obra poética; prepara o primeiro projeto de bailado (O sonho da rosa); desenha o primeiro cartaz (Boxe). No ano seguinte colabora como diretor artístico no semanário monárquico Papagaio Real.[10]

Em 1915 escreve a novela A Engomadeira (publicada em 1917) e o poema A Cena do Ódio (publicado parcialmente em 1923); colabora no primeiro número da Revista Orpheu e publica o Manifesto Anti-Dantas e por extenso, por ocasião da estreia da peça de teatro Soror Mariana Alcoforado de Júlio Dantas, reagindo indiretamente às críticas negativas desse conhecido médico e escritor à Revista Orpheu (também na revista luso-brasileira Atlântida[11] surgem, neste período inicial, reproduções artísticas da sua autoria).[12]

Em 1916 participa na exposição da Galeria das Artes de José Pacheko (1885–1934), com receção crítica ambivalente. Troca correspondência com Sonia Delaunay, então a residir com o seu marido Robert Delaunay em Vila do Conde, redigindo esboços para poemas e bailados; projeta exposições — nunca realizadas —, em Barcelona e Estocolmo, com Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana, Sonia e Robert Delaunay.[13] Nesse mesmo ano publica o manifesto de apoio à I Exposição de Amadeo de Souza-Cardoso, em Lisboa, tornando-se num dos primeiros defensores da sua obra em território nacional. Nas palavras de Almada, "Amadeo de Souza-Cardoso é a primeira Descoberta de Portugal na Europa no século XX".[14]

Nessa época Almada convive ativamente com Santa- Rita (1889-1918), pintor que proclamava ter sido encarregue pessoalmente por Marinetti de difundir em Portugal os manifestos do futurismo; essa aliança irá impulsionar o período áureo do futurismo português. Em 1917 realiza, no Teatro da República, a conferência Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX; nesse mesmo ano colabora no único número da revista Portugal Futurista e publica a novela K4 O Quadrado Azul. Faz também um pacto com Amadeo e Santa-Rita em que todos se comprometem a estudar os Painéis de São Vicente de Fora, de Nuno Gonçalves, embora só Almada vivesse para o fazer. Influenciado pela vinda recente dos Ballets Russes de Diaghilev a Lisboa, em 1918 lidera o grupo de bailado de Helena Castelo Melhor, colaborando em produções de algum amadorismo nas quais é argumentista, coreógrafo, figurinista, diretor de bailado e, por vezes, bailarino.[15]

1919–1932

Nome de Guerra, 1925 (publicado em 1938)

Em 1918 a dinâmica da arte portuguesa mais avançada é abalada pela morte prematura de Santa- Rita e Amadeo, deixando Almada ainda mais isolado. No ano seguinte parte para Paris, no momento em que o radicalismo das vanguardas históricas é apaziguado pelos apelos generalizados de regresso à ordem que surgem na sequência do fim da Primeira Guerra Mundial. Será sobretudo um tempo de desencontros: "Procurei os artistas avançados. Fiquei amigo de vários, mas […] não apareceu nunca o motivo que juntasse no mesmo ideal a minha arte e a de cada um deles".[nota 1] Em Paris exerce simples atividades de sobrevivência (dançarino de cabaret, empregado de armazém…); desenha, também, e escreve o poema em prosa Histoire du Portugal par Coeur (publicada mais tarde na Revista Contemporânea), onde revela a "aquisição de uma consciência nacional ao mesmo tempo mítica e lírica, que irá nortear a sua obra futura e com a qual ele resistirá à desilusão de Paris".[16] Em 1919 colabora no quinzenário humorístico O Riso da vitória[17] dirigido por Jorge Barradas e Henrique Roldão.

Almada regressa a Portugal em 1920. A sua primeira intervenção significativa após o regresso é a conferência A Invenção do Dia Claro (1921), que marca uma alteração de atitude da sua parte: "Almada abandonou a sua agressividade anterior, para se concentrar na atitude construtiva, que, sendo fortemente determinada, era também subtilmente inspirada pelo mais elevado lirismo".[18] Ainda em 1920 expõe na III Exposição dos Humoristas. Ao longo dos anos subsequentes colabora em diversos jornais e revistas, do Diário de Lisboa e Sempre Fixe à Contemporânea, publicando capas, desenhos humorísticos, textos e ilustrações; realiza capas de livros e revistas; participa como convidado na Exposição dos Cinco Independentes (SNBA, Lisboa, 1923); em 1925 escreve o romance Nome de Guerra (publicado em 1938); realiza obras para a Brasileira do Chiado (1925) e para o Bristol Club (1926), em Lisboa; estuda os painéis de São Vicente, de Nuno Gonçalves, integra o elenco principal do filme português O Condenado (1921)[19] e publica no Diário de Notícias A questão dos Painéis; a história de um acaso de uma importante descoberta e do seu autor (1926).[20][21]

Parte para Madrid em Março de 1927, cidade onde irá participar na tertúlia intelectual do Café Pombo e, sobretudo, viver num meio intelectual e artístico em efervescência. Durante os anos que se seguem escreve El Uno, tragédia de la Unidad, um conjunto de duas peças dedicado à sua futura esposa, Sarah Afonso, que inclui: Deseja-se Mulher (publicado em 1959 e representado pela primeira vez em 1963) e SOS (2.º ato publicado em 1935). Colabora com capas e desenhos em jornais e revistas; e realiza decorações murais (Cidade Universitária, cinema San Carlos, etc.), que são o primeiro sinal de um extenso trabalho artístico em articulação com a arquitetura.[22]

1932–1970

Vitral, Igreja de Nossa Senhora de Fátima, 1934
Caderno Sudoeste, nº 1, 1935

Almada regressa definitivamente a Lisboa em 1932. Embora de convicções monárquicas (foi diretor artístico do Papagaio Real em 1914; e talvez tenha pertencido, juntamente com Amadeo, Eduardo Viana e Santa-Rita, entre outros, a um grupo monárquico intitulado Grupo do Tavares[23]), anos depois verifica-se uma aproximação aos ideais do Estado Novo, desde logo através da sua apologia antecipada do nacionalismo — que Eduardo Lourenço apelida de "pré-fascizante".[nota 2] Mas há outros indícios dessa aproximação: logo em 1933 Almada cria o cartaz político Votai a Nova Constituição; realiza um selo com a frase de Salazar Tudo Pela Nação (1935) e é nomeado Procurador à Câmara Corporativa (1965).[25] "De qualquer modo, a subordinação da arte à política repugnava inteiramente a Almada: o seu protesto ao Marinetti académico fascista, quando veio a Lisboa em 32, trazido por Ferro, traduz a sua independência fundamental. Em nome dela, o pintor, que expusera no Salão de Inverno de 32, depois na UP em 33 [exposição individual] participaria nos «Independentes» de 36 e não no salão oficial de 35 ou nos anos seguintes, mantendo-se [até 1940] à margem da iniciativa do SPN/SNI e da sua política artística".[26]

Casou a 31 de março de 1934, na 3.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa, com Sarah Afonso.[27] Em 1935 nasce o seu primeiro filho, José. Nesse mesmo ano publica os cadernos Sudoeste (3 números: Junho, Outubro, Novembro), onde são incluídos textos seus e que no terceiro número serve de ponto de encontro de colaboradores da Orpheu e da Presença. Ainda em 1934 realiza os primeiros estudos para os vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, dando início à colaboração com o arquiteto Pardal Monteiro. Até ao final da década dedica-se a uma multiplicidade de atividades: executa pinturas; publica desenhos, ilustrações, poesias, ensaios e romances; realiza conferências e palestras; colabora com frescos e vitrais em diversos edifícios, entre os quais o pavilhão da Colonização da Exposição do Mundo Português e o edifício do Diário de Notícias, Lisboa, projetado por Pardal Monteiro.[28]

Selo de correio, 1935

Em 1941 o Secretariado de Propaganda Nacional organiza a exposição Almada – Trinta Anos de Desenho, assinalando um momento de viragem na percepção pública da sua obra. Perante o sucesso da exposição, Cottinelli Telmo escreveria, numa carta aberta ao artista: "Hoje és o Almada de sempre, apenas com a diferença de seres o Almada aceite, o Almada compreendido. […] O que se criou foi o hábito novo de te considerarem, em vez do hábito antigo de descrerem de ti, de te temerem, de te não tomarem a sério"[29]. A partir desse momento irá participar em iniciativas do SPN, de que até aí se tinha distanciado: ainda em 1941, e em 1942, participa respetivamente na 6.ª e na 7.ª Exposição de Arte Moderna, vencendo o Prémio Columbano em 1942. Em 1943 projeta cenários para a ópera Inês de Castro, de Ruy Coelho (Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa); nesse mesmo ano realiza estudos preparatórios para as pinturas murais da Gare Marítima de Alcântara, que concretizará in loco entre 1945 e 1947, e em 1946 inicia a execução dos murais da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos que termina em 1948 (ambos os projetos de arquitetura de Pardal Monteiro). Colabora na 1.ª série da revista Panorama [30] (1941-1949). Em 1946 vence o prémio Domingos Sequeira na I Exposição de Arte Moderna de Desenho e Aguarela, SPN/SNI.[31]

Em 1952 expõe individualmente na Galeria de Março (exposição inaugural dessa galeria) e participa na Exposição de Arte Moderna (Lisboa). Dois anos mais tarde pinta a primeira versão de Retrato de Fernando Pessoa para o restaurante Irmãos Unidos. Em 1957 participa na I Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, sendo galardoado com um prémio extra concurso. Ainda dentro da colaboração com Pardal Monteiro, entre 1957 e 1961 realiza grandes painéis decorativos para as fachadas de vários edifícios da Cidade Universitária de Lisboa(Faculdade de Direito; Faculdade de Letras; Reitoria).[32] Em 1960 dá uma série de entrevistas, publicadas no Diário de Notícias, onde de algum modo encerra o seu "itinerário espiritual"[33] e retoma a questão da reconstrução do Painéis de São Vicente de Fora; em 1963 expõe na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, e nesse mesmo ano é alvo de homenagem por ocasião do seu septuagésimo aniversário, sendo publicada a primeira monografia sobre a sua obra, da autoria de José Augusto França. Encomendas e atividades diversas preenchem os anos finais, entre as quais se destacam as tapeçarias para a Exposição de Lausana, para o Tribunal de Contas e para o Hotel Ritz, Lisboa; uma série de gravuras em vidro acrílico (1963) e cenários para o Auto da Alma, de Gil Vicente, no Teatro Nacional de São Carlos, a sua última participação no teatro.[34] Foi condecorado com o grau de Grande-Oficial da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico a 13 de Julho de 1967.[35] Em 1968-1969 realiza o painel Começar, para o átrio do edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa. Em Julho de 1969 faz a sua derradeira intervenção pública, participando no programa televisivo Zip-Zip.[34]

Morre em Lisboa, a 15 de Junho de 1970, no mesmo quarto do Hospital de São Luís dos Franceses, no Bairro Alto, em que faleceu Fernando Pessoa.[32]

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